- Renda alta não muda o diagnóstico, e achar que muda é o erro mais comum. Quem fatura cem mil e nunca organizou nada precisa do mesmo levantamento que quem ganha cinco mil e nunca organizou nada.
- Tem uma frase que abre o caso inteiro. Quando o cliente diz que recebe tudo pelo CNPJ e vai puxando quando precisa, ele acabou de descrever o problema que você veio resolver.
- O primeiro movimento são duas contas e um valor fixo por mês. O pró-labore é o que separa a vida da pessoa da operação do consultório, e sem ele nenhum orçamento fecha.
- A reserva desse cliente é de 6 a 8 meses de custo de vida, podendo chegar a 12, porque ele quase sempre é autônomo ou empresário. O denominador é o custo de vida inteiro, não só o custo fixo.
- Comprometimento alto descreve o orçamento, nunca a pessoa. Financiamento recente de imóvel, carro e equipamento joga gente muito organizada para a faixa crítica, e isso é informação, não julgamento.
- Milha e investimento esperam a dívida. A pergunta da fatura integral vem primeiro, sempre, e ela resolve sozinha metade das conversas que esse cliente quer ter.
- O teto do acompanhamento continua em 5% da renda. Numa renda alta o valor em reais fica alto, e isso é esperado; passar do teto não é, mesmo que o cliente aceite.
Existe um tipo de cliente que faz o Educador Financeiro duvidar do próprio método, e ele quase sempre usa jaleco. A pessoa fatura muito, trabalha mais do que deveria, tem consultório montado e carro na garagem, e abre a primeira conversa dizendo que não faz ideia de para onde o dinheiro vai. Diante disso, a reação natural é achar que aquele caso pede uma técnica que você ainda não aprendeu.
Essa dúvida é compreensível e é justamente o que atrapalha o atendimento. A sensação de estar diante de outra categoria de problema faz o educador pular o levantamento, ir direto para o assunto que o cliente levantou e começar a conversa pela parte mais avançada, que costuma ser investimento. Aí o atendimento vira opinião, e opinião é exatamente o que esse cliente já recebe de todo mundo.
Este artigo trata do que de fato muda quando o cliente é médico, dentista ou qualquer profissional que vive de um consultório. Vou usar a palavra médico ao longo do texto para encurtar, mas o que está escrito aqui serve igual para o dentista, para o fisioterapeuta, para o veterinário e para qualquer pessoa que fature pelo próprio atendimento. E já adianto a resposta da pergunta do título, porque ela organiza tudo o que vem depois: o método é o mesmo, e o que muda são duas coisas bem concretas.
Educação financeira para médicos exige outro método?
Não exige, e essa é a parte que mais decepciona quem pergunta. O critério do método que eu ensino nunca foi a renda do cliente, e classificar alguém por quanto ele ganha é o erro mais frequente de quem está começando a montar a carteira de clientes. É intuitivo, parece sofisticado, e está errado.
Renda alta não indica um serviço, e renda baixa não indica outro. O cliente que ganha cem mil reais por mês e nunca organizou nada precisa exatamente do mesmo diagnóstico que o cliente que ganha cinco mil e nunca organizou nada. Isso acontece porque o que define o caso é o estado da base financeira, e não o tamanho do número que entra. Os dois chegam sem saber quanto gastam, sem orçamento e sem reserva, e os dois precisam que alguém levante isso antes de opinar sobre qualquer coisa.
Vale olhar de perto o que a renda alta faz com o problema, porque ela não o cria nem o resolve. Ela o adia. Quem ganha pouco descobre a desorganização no dia 20, quando o dinheiro acaba, e essa dor chega cedo e obriga a agir. Quem ganha muito atravessa anos inteiros sem bater nesse limite, porque sempre entra o suficiente para cobrir o buraco do mês anterior, e o resultado é um problema que amadureceu em silêncio com juros correndo por cima.
Então sim, existem duas coisas que mudam de verdade nesse atendimento, e nenhuma delas é o método. A primeira é que o dinheiro do consultório e o dinheiro da casa costumam ser o mesmo dinheiro, e isso contamina todo número que você for levantar. A segunda é a escala: os valores são grandes o bastante para que um erro de 15% passe despercebido por anos, e grandes o bastante para que a conta da reserva assuste quando ela finalmente aparecer escrita.
Tem ainda um detalhe de condução que esse cliente entrega de graça, e seria desperdício não usar. A analogia que eu uso para explicar o trabalho é a da consulta médica: a pessoa chega com uma queixa, você pede exames, faz um diagnóstico e entrega um tratamento para ela executar. Com esse cliente a analogia não precisa de explicação nenhuma, porque ele passa o dia inteiro do outro lado dela, e dizer que você não vai prescrever antes de examinar costuma ser o momento em que ele relaxa e passa a colaborar.
O que a primeira frase do cliente já entrega?
Tem uma frase que aparece cedo nesse atendimento e vale ouvir com atenção. Ela sai assim, com pequenas variações: eu recebo tudo pelo meu CNPJ e vou puxando quando precisa. Quem diz isso acabou de descrever, sem perceber, o problema central do próprio caso, e o seu trabalho nos próximos minutos é não deixar essa frase passar como se fosse detalhe operacional.
O que essa frase descreve é uma mistura, e ela tem consequência prática em cima de consequência prática. Enquanto o dinheiro do consultório e o dinheiro da casa estiverem na mesma conta, não dá para saber se o consultório dá lucro, porque as despesas pessoais estão somadas aos custos da operação. Pela mesma razão, não dá para planejar a vida pessoal, já que a renda da pessoa não existe como número: o que existe é o faturamento de uma empresa, do qual alguém retira valores sem critério.
Esse ponto merece uma pausa, porque ele é onde o atendimento desanda mais vezes. Quando você pergunta quanto o cliente ganha e ele responde com o faturamento do consultório, você não recebeu a resposta da pergunta que fez. Montar orçamento sobre esse número produz um plano que não fecha, e o cliente vai concluir, com razão, que o plano era irreal.
Vale também prestar atenção em como esse cliente responde à pergunta de quanto gastou no mês passado. Na ficha de anamnese financeira existem duas perguntas que pedem explicitamente que ele não confira nada e responda só o palpite, e a distância entre o palpite e o número real é matéria de diagnóstico. Com esse perfil essa distância costuma ser enorme, e ela não é falta de inteligência: é a consequência direta de nunca ter existido um lugar onde esses números fossem somados.
Uma última leitura dessa primeira conversa, e ela é sobre o tempo. A anamnese pergunta quanto tempo por semana a pessoa consegue dedicar às finanças, e esse cliente costuma marcar a faixa mais baixa, porque ele realmente não tem as horas. Essa resposta é o teto do que você pode combinar com ele, e plano que exige mais tempo do que o cliente declarou não é ambicioso, é irreal. Com médico, isso significa desenhar um primeiro mês pequeno e muito bem escolhido.
Como separar a conta do consultório da conta da casa?
O primeiro movimento tem duas peças, e ele é mais simples do que parece. São duas contas bancárias separadas, uma para a operação do consultório e outra para a vida pessoal, e um pró-labore definido, que é um valor fixo que o dono retira todo mês. Esse valor precisa ser suficiente para as despesas pessoais dele e compatível com a realidade do negócio, e é ele que faz a renda da pessoa passar a existir como número.
Repare no efeito dessa peça, porque ele é maior do que o gesto. A partir do momento em que existe um pró-labore, o cliente vira um assalariado do próprio consultório, com um valor previsível entrando todo mês, e aí tudo o que o método faz com qualquer cliente volta a funcionar. Dá para montar orçamento, dá para calcular comprometimento de renda, dá para dimensionar reserva, e dá para saber se o consultório está dando lucro, porque os dois lados pararam de se misturar.
Depois do primeiro movimento vêm três coisas, e elas valem ser combinadas na mesma reunião. Registrar entradas e saídas de cada conta, para que os dois lados tenham história. Formar uma reserva do consultório, com a mesma lógica da reserva pessoal, porque a operação também tem meses ruins. E documentar qualquer retirada que passe do pró-labore, para que o dinheiro extra que sai não vire um buraco que ninguém sabe explicar depois.
Existe um limite nesse assunto, e ele precisa ficar claro para você antes de ficar claro para o cliente. Enquadramento, regime tributário e o valor do pró-labore para fins fiscais são conversa de contador, e o seu papel é organizar o fluxo, não escolher o desenho tributário. Mandar o cliente levar essa pergunta a um contador não tira a sua autoridade, e esse é um ponto que vale internalizar: encaminhar não custa autoridade, ganha.
Só que encaminhar tem uma regra que quase ninguém cumpre, e ela é a parte que separa o profissional do amador. Encaminhe, acompanhe o cliente naquela conversa e traga o resultado de volta para dentro do plano. O encaminhamento que vira desaparecimento é o único que estraga a relação, porque o cliente entende que você entregou o problema para outra pessoa e saiu de cena.
Qual número usar como renda de quem faz plantão?
Essa é a segunda camada do mesmo problema, e ela aparece depois que o pró-labore já existe. Boa parte desse público não tem uma renda, tem várias: o consultório próprio, os plantões, o convênio que paga com atraso, a clínica onde atende duas vezes por semana. São pagadores diferentes, valores diferentes e datas diferentes, e nenhum deles se parece com um salário.
O caminho aqui não é específico de médico, e é por isso que eu não vou repeti-lo inteiro. Esse cliente é um cliente de renda variável, e o método para ele está no artigo sobre organizar as finanças do cliente com renda variável. Lá estão o levantamento dos doze meses, o piso real, o orçamento montado sobre esse piso e o destino combinado para o dinheiro do mês bom. Vale ler antes de atender o primeiro caso desse tipo.
O que eu quero marcar aqui é só a diferença que o consultório acrescenta. No cliente de renda variável comum, a oscilação é da renda dele. No cliente de consultório, parte do que oscila é faturamento de uma empresa, e a renda dele só começa a existir depois que o pró-labore está definido. São duas camadas empilhadas, e tratar as duas como uma só é o que produz aquele orçamento que parecia certo e não sobreviveu ao segundo mês.
Na prática, isso muda a ordem do seu trabalho. Primeiro você separa, porque sem separar não existe renda para medir. Depois você levanta os doze meses do que sobrou do lado pessoal, que é o pró-labore mais o que mais entrar ali. E só então você monta orçamento, que é quando o cliente finalmente vê um número que corresponde à vida dele.
Quanto esse cliente precisa ter de reserva?
A régua que eu uso é de 6 a 8 meses de custo de vida, podendo chegar a 12 conforme a situação. Ela vale aqui porque esse cliente quase sempre é autônomo ou empresário, e essa faixa é o dobro da que vale para quem tem carteira assinada, que fica em 3 a 4 meses. A razão é simples: quem depende do próprio atendimento para faturar não tem aviso prévio, não tem rescisão e não tem seguro-desemprego.
Tem um detalhe no denominador que decide a conta inteira, e ele é o que mais se erra. A medida é em meses de custo de vida, que é tudo o que a pessoa gasta num mês normal, e não só o custo fixo. A reserva existe para alguém atravessar a emergência mantendo a vida de pé, e emergência já é um mês difícil sem a pessoa precisar mudar de vida no meio dele.
Com esse cliente a conta costuma produzir um susto, e vale você estar preparado para o momento em que ela aparece na tela. Um custo de vida de R$ 25.000 por mês, que não é nada excepcional nesse público, significa uma reserva-alvo entre R$ 150.000 e R$ 200.000. O cliente vai olhar esse número e dizer que é impossível, e a resposta honesta é que ele é consequência direta do custo de vida dele, e não uma exigência sua.
Essa é, aliás, uma das conversas mais valiosas desse atendimento. O número da reserva é o primeiro espelho objetivo do padrão de vida, e ele mostra o preço de manter aquele padrão de pé sem renda entrando. A partir daí existem dois caminhos honestos, e os dois são do cliente: construir a reserva ao longo do tempo que for necessário, ou revisar o custo de vida para que a reserva caiba. Quem escolhe é ele, e o trabalho do educador é garantir que a escolha seja informada.
Ainda sobre reserva, tem um ponto que esse perfil testa com frequência, porque ele costuma ter patrimônio. Reserva de emergência exige liquidez diária, então o consultório, o equipamento, o imóvel alugado e o consórcio não são reserva, por mais que somem patrimônio e por mais que o cliente insista que são. A régua não é sobre valor, é sobre conseguir usar o dinheiro no dia em que ele for necessário. Esse é o mesmo critério que aparece no artigo sobre ajudar o cliente a montar a reserva de emergência, e ele vale igual aqui.
O que o comprometimento de renda mostra aqui?
A régua de comprometimento é a mesma de sempre, e ela é sobre a renda líquida. Até 30% a dívida é administrável, e o trabalho é de organização e de custo. Acima de 30% e até 50% é faixa de atenção, porque cabe mas sem folga, e qualquer imprevisto vira dívida nova. Acima de 50% é crítico, e aí o trabalho é renegociação e aumento de renda, nessa ordem de urgência.
Esse cliente surpreende nessa conta com uma frequência que vale você antecipar. É muito comum encontrar um médico organizado, pontual, sem nenhum atraso em lugar nenhum, com 45% da renda comprometida. O apartamento financiado, o carro financiado e o equipamento do consultório financiado somam parcelas grandes que entram todo mês, e nenhuma delas é sinal de descontrole.
Aqui vale guardar uma regra de leitura que protege a relação. Comprometimento alto não é, por si só, diagnóstico de comportamento, e a classificação descreve a folga do orçamento, nunca a pessoa. Um financiamento de imóvel recém-contratado joga alguém muito organizado para a faixa crítica, e devolver isso ao cliente como se fosse um defeito dele é a forma mais rápida de perder a conversa.
O jeito certo de devolver é sempre com o número do lado. Dizer que o comprometimento está em 47% e que isso é faixa de atenção é informação, e o cliente consegue agir sobre isso. Dizer que ele está numa situação apertada sem mostrar a conta é opinião, e opinião sobre a vida de alguém que ganha bem costuma soar como julgamento, mesmo quando não é.
Sobre a ordem de atacar as dívidas, eu não prescrevo um método único, e isso vale para esse cliente como vale para todos. Você mostra as duas contas, a de quitar pela maior taxa primeiro e a de quitar pelo menor saldo primeiro, com o custo em reais de cada caminho, e deixa a escolha com ele. Havendo sinal de desânimo ou de tentativas anteriores que não deram certo, a recomendação é o caminho híbrido: quitar a menor primeiro, para produzir uma vitória rápida, e depois seguir pela maior taxa. A lógica inteira está no artigo sobre ajudar o cliente a sair das dívidas.
Como levantar os gastos de quem recebe de tanto lugar?
Chega a hora do trabalho braçal, e com esse cliente ele é maior do que o normal. São duas ou três contas bancárias, dois ou três cartões, recebimentos de pagadores diferentes e um volume de lançamentos por mês que torna a digitação manual inviável na prática. Quem já tentou montar isso numa planilha sabe que o problema não é a planilha: é que ninguém sustenta esse volume de digitação por seis meses seguidos.
Esse é o ponto do atendimento em que a ferramenta deixa de ser conforto e passa a ser condição. O levantamento precisa acontecer rápido o suficiente para que o cliente ainda esteja interessado quando o diagnóstico ficar pronto, e existe um limite de paciência que nenhum método vence. Se o levantamento demorar três semanas, o cliente que te procurou empolgado já esfriou.
O atalho do levantamento
Karppa Flow: a IA lê o extrato e já sugere a categoria
O cliente de consultório recebe de muitos lugares, e digitar lançamento por lançamento é o trabalho que trava o diagnóstico. No Karppa Flow, a Karppa IA lê o PDF do extrato ou da fatura de praticamente qualquer banco do Brasil e já sugere a categoria de cada lançamento. Você revisa e importa, e o mês do cliente aparece inteiro.
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Tem um cuidado de organização que é específico desse caso e que vale desde o primeiro mês. As duas contas precisam continuar separadas também dentro da ferramenta, porque juntar tudo de novo na hora de lançar desfaz exatamente o trabalho que a separação fez. O consultório tem as categorias dele, a casa tem as dela, e o pró-labore é a ponte entre os dois, aparecendo como saída de um lado e entrada do outro.
Quando os números finalmente aparecem organizados, costuma acontecer uma coisa que eu já vi muitas vezes. O cliente olha a composição dos gastos e encontra sozinho duas ou três linhas que ele não sabia que existiam naquele tamanho, e esse momento vale mais do que qualquer argumento que você pudesse fazer. O jeito de conduzir essa devolutiva está no artigo sobre como apresentar o diagnóstico financeiro ao cliente, e ele importa aqui mais do que o normal, porque esse perfil tem pouco tempo e muita informação.
Quais assuntos esse cliente traz para a reunião?
Esse perfil chega com uma pauta própria, e ela costuma ser mais avançada do que a situação dele comporta. Previdência privada, consórcio, seguro de vida, holding familiar, programa de pontos do cartão e onde investir o que sobra. Ele recebe oferta desses produtos com frequência, muitas vezes de gente que atende no mesmo prédio, e frequentemente chega à reunião querendo que você arbitre entre duas propostas que recebeu.
A linha que organiza isso cabe numa frase, e ela vale para todos os assuntos acima. Educar sobre a categoria, sim. Indicar o produto, não. Você explica o que a categoria é, para que ela serve, por que ela serve ou não serve para um objetivo daquele cliente, aponta a lacuna que existe e faz a conta, porque conta é fato e não recomendação. E manda procurar quem é habilitado quando a decisão exigir isso.
Do outro lado dessa linha está o que não se faz, mesmo que o cliente insista e mesmo que a resposta pareça óbvia. Nome de produto, de instituição, de corretora ou de papel não entra. Percentual de alocação de carteira não entra, porque isso é recomendação de investimento mesmo sem citar produto. Previsão de rentabilidade não entra, e projeção só entra declarada como hipótese. Mandar resgatar, trocar ou aportar não entra, e orientação jurídica ou tributária de sucessão também não. O artigo sobre ajudar o cliente a começar a investir detalha onde essa conversa para, e o de regulamentação da profissão mostra por que essa fronteira existe.
No assunto seguro esse cliente merece atenção extra, e é um dos poucos lugares em que o perfil muda a prioridade. A renda dele depende quase inteiramente da capacidade de ele mesmo atender, e um afastamento de seis meses não reduz a renda, zera. O mapeamento é de risco descoberto e não de produto, e são três perguntas: quem depende dessa renda, o que acontece com a casa se ela parar, e o que a apólice atual efetivamente cobre. A escolha da apólice é de corretor habilitado, e a ordem também importa, porque quem ainda está organizando o orçamento equilibra o orçamento antes de contratar apólice nova.
E tem uma regra de ordem que resolve sozinha metade das conversas que esse cliente quer ter. Nunca trate milha antes de tratar dívida. A pergunta da fatura integral vem primeiro, sempre, e ela é direta: nos últimos três meses, em quantos ele pagou o valor total da fatura do cartão. Quem paga tudo todo mês está num assunto de otimização, e aí falar de programa de pontos faz sentido. Quem gira rotativo está pagando juros para acumular ponto, e não existe programa de pontos que cubra esses juros.
Qual dos três serviços esse cliente precisa?
O critério são duas perguntas, e nenhuma delas é sobre quanto o cliente ganha. A primeira é qual o tamanho do problema que a pessoa trouxe: um problema delimitado, com contorno claro, é problema de consultoria; uma base financeira inteira por construir é problema de mentoria; e nenhum problema estrutural, só uma sequência de decisões que vão aparecendo, é acompanhamento.
A segunda pergunta é quanto tempo esse problema leva para ser resolvido. O que se resolve com diagnóstico e um plano de trinta dias é consultoria. O que exige meses de aplicação e correção é mentoria. E o que não se resolve, porque não é um problema e sim uma trajetória, é acompanhamento.
Aplicando isso ao caso típico desse artigo, a resposta costuma ser a mesma. O médico que mistura consultório e casa, não sabe quanto gasta, não tem orçamento, carrega financiamentos e não tem reserva está com os cinco pilares da base financeira por construir, e isso é mentoria, não consultoria. Seis meses não é um pacote maior para vender mais: é o tempo que a separação leva para virar hábito e aparecer em número.
Existe um atalho útil que aparece na fala do próprio cliente, e ele quase nunca falha. Quem pede para entender o que está acontecendo quer diagnóstico. Quem pede alguém ao lado dele por um tempo quer construção. Quem pede alguém para pensar junto quer conselho. O cliente costuma dizer qual degrau precisa, e o trabalho do educador é escutar em vez de empurrar o serviço que ele preferia vender. A comparação completa entre os três está no artigo sobre consultoria, mentoria ou acompanhamento.
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Agendar Sessão EstratégicaQuanto cobrar de um cliente que ganha muito?
Os dois primeiros serviços têm preço de tabela, e ele não muda com a renda de quem paga. A consultoria começa em R$ 500 e a mentoria de seis meses começa em R$ 2.000, que é sempre quatro vezes a consultoria. Essa proporção não é estética: ela é o que mantém a distância entre os degraus quando os preços sobem, e quebrá-la para um cliente específico desmonta a esteira de serviços inteira na próxima correção.
O serviço que varia com a renda é o terceiro, e ele não tem valor de tabela, tem teto: até 5% da renda do cliente. Uma renda de R$ 8.000 comporta até R$ 400 por mês, e uma renda familiar de R$ 30.000 comporta até R$ 1.500. A proporção existe porque o acompanhamento é o único serviço que precisa caber no orçamento do cliente por anos, e quem ganha mais paga mais em reais porque tem, de fato, mais complexidade para aconselhar.
Aqui mora a tentação específica desse nicho, e ela é forte. O cliente ganha bem, aceitaria pagar mais, e a conta de 5% já produz um número que parece alto. Mesmo assim, a régua é que cinco por cento é teto e não alvo, e passar dele não é escolha: é sair da régua. O motivo é prático e não moral, porque o serviço que custa demais para a renda de quem paga não dura os anos que ele precisa durar, e acompanhamento que não dura não é acompanhamento.
Vale lembrar que a palavra "até" carrega uma instrução inteira. Cobrar abaixo do teto no começo é uma escolha legítima, e costuma ser a certa para quem está formando a primeira base de clientes contínuos. O raciocínio completo de precificação, incluindo quando subir, está no artigo sobre quanto cobrar por uma consultoria financeira.
Que erros mais aparecem nesse atendimento?
Cinco erros aparecem com frequência quando o cliente é de renda alta, e todos são reconhecíveis cedo. Vale ler a lista antes do primeiro atendimento desse tipo, porque quase todos acontecem na primeira reunião.
Começar pela pauta que o cliente trouxe. Ele abre a conversa perguntando onde investir, e responder isso antes de levantar qualquer número é prescrever sem examinar. O levantamento vem primeiro mesmo quando parece que o cliente já sabe o que quer.
Aceitar o faturamento como se fosse renda. Enquanto o pró-labore não existir, o número que o cliente te deu é a receita de uma empresa, e orçamento montado sobre ele não fecha. Esse é o erro que mais produz plano abandonado no segundo mês.
Se intimidar com o cliente. Atender alguém que ganha cinco vezes mais que você mexe com qualquer um no começo, e o sintoma é parar de fazer as perguntas desconfortáveis. O que esse cliente compra de você não é patrimônio, é método, e ele percebe na hora quando o educador começa a concordar com tudo.
Apertar muitas categorias de uma vez. O cliente olha o diagnóstico, se empolga e quer cortar oito linhas no mesmo mês. Quem aperta oito falha nas oito e volta se sentindo incapaz, e com quem tem pouco tempo isso acontece mais rápido ainda.
Transformar a revisão em auditoria. Quarenta minutos de extrato linha a linha produzem um cliente exausto e envergonhado, e cliente envergonhado para de lançar. Com esse perfil o risco é maior, porque ele tem muito lançamento e pouca paciência.
Perguntas frequentes
Como atender um cliente médico que ganha bem e não sobra nada?
Do mesmo jeito que você atende qualquer pessoa que nunca organizou nada, e essa resposta decepciona de propósito. O critério do método não é a renda, é o tamanho do problema que a pessoa trouxe e o tempo que ele leva para ser resolvido. Quem fatura cem mil por mês e nunca teve orçamento precisa exatamente do mesmo diagnóstico que quem ganha cinco mil e nunca teve orçamento. O que muda nesse atendimento não é o método, são duas coisas concretas: o dinheiro do consultório e o dinheiro da casa costumam ser o mesmo dinheiro, e os números são grandes o suficiente para esconder o problema por anos. É por isso que o levantamento vem antes de qualquer conselho, e é por isso que a conversa sobre investimento espera a conta fechar.
O cliente recebe tudo pelo CNPJ. Por onde eu começo?
Pelo primeiro movimento da separação, que são duas contas bancárias e um pró-labore definido. O pró-labore é um valor fixo que o dono retira todo mês, suficiente para as despesas pessoais dele e compatível com a realidade do negócio. Enquanto essa separação não existe, não dá para saber se o consultório dá lucro nem para planejar a vida pessoal, porque os dois lados estão somados na mesma conta. Depois do primeiro movimento vêm três coisas: registrar entradas e saídas de cada conta, formar uma reserva do consultório com a mesma lógica da reserva pessoal, e documentar qualquer retirada que passe do pró-labore. E vale saber onde você para: enquadramento, regime tributário e o valor do pró-labore para fins fiscais são conversa de contador, não sua.
Qual é a reserva de emergência de um médico?
A régua que eu uso é de 6 a 8 meses de custo de vida, chegando a 12 conforme a situação. Ela vale aqui porque esse cliente quase sempre é autônomo ou empresário, e não CLT. Repare no denominador, porque ele é onde mais se erra: a conta é sobre o custo de vida, tudo o que a pessoa gasta num mês normal, e não só sobre o custo fixo. A reserva existe para a pessoa atravessar a emergência mantendo a vida de pé, e emergência já é um mês difícil sem precisar mudar de vida no meio dela. Em reais isso costuma assustar, e o número grande não é erro de conta: é a consequência de um custo de vida alto. Reserva também exige liquidez diária, então consultório, equipamento, imóvel e consórcio não entram nela, por mais que somem patrimônio.
Posso indicar investimento para o cliente que ganha muito?
Não, e a linha é a mesma para qualquer cliente: educar sobre a categoria, sim, indicar o produto, não. Você pode explicar o que é liquidez, por que uma categoria serve ou não serve para um objetivo, apontar a lacuna que existe e fazer a conta, porque conta é fato e não recomendação. O que você não faz é citar nome de produto, de instituição ou de papel, definir percentual de alocação de carteira, prometer rentabilidade ou mandar resgatar, trocar e aportar. Esse cliente costuma testar essa linha mais do que os outros, porque ele já recebe oferta de investimento, de previdência e de consórcio com frequência, e muitas vezes chega à reunião querendo que você arbitre. A saída profissional é explicar os critérios e mandar procurar quem é habilitado, sem sumir do processo depois.
Quanto cobrar de um cliente de renda alta?
Os dois primeiros serviços têm preço de tabela, e ele não muda com a renda de quem paga. A consultoria começa em R$ 500 e a mentoria de seis meses começa em R$ 2.000, que é sempre quatro vezes a consultoria. O que varia com a renda é o terceiro, o acompanhamento, que não tem valor de tabela e sim teto: até 5% da renda do cliente. Numa renda alta esse teto produz um número alto em reais, e isso é esperado, porque uma vida financeira maior dá mais trabalho para aconselhar. O que não se faz é passar do teto, mesmo que o cliente aceite pagar mais. A razão é prática: o acompanhamento precisa caber no orçamento dele por anos, e o serviço que custa demais para a renda de quem paga não dura o tempo que ele precisa durar.
Como calcular a renda de quem vive de plantão?
Não existe um número só, e tentar achar um é o que trava o atendimento desse cliente. A renda de plantão varia por mês, vem de pagadores diferentes e cai em datas diferentes, então ela se trata com o método de renda variável, e não com a média simples do ano. O caminho é levantar os doze meses, enxergar o piso real, montar o orçamento sobre esse piso e combinar antes para onde vai o dinheiro do mês bom. Tem um detalhe específico desse cliente: parte do que ele chama de renda é faturamento do consultório, e não renda dele. Enquanto o pró-labore não estiver definido, você não está olhando a renda da pessoa, está olhando a receita de uma empresa, e orçamento montado sobre esse número não fecha.
O cliente quer falar de milhas e de previdência. Começo por aí?
Não, e essa é uma das regras mais úteis para esse perfil: nunca trate milha antes de tratar dívida. A pergunta da fatura integral vem primeiro, sempre, e ela é simples: nos últimos três meses, em quantos ele pagou o valor total da fatura do cartão. Quem paga tudo todo mês está num assunto de otimização, e aí a conversa sobre programa de pontos faz sentido. Quem gira rotativo está pagando juros para acumular ponto, e nenhum ponto cobre esses juros. O mesmo vale para previdência, consórcio e aporte de longo prazo: eles entram depois de o orçamento fechar e a reserva existir. Isso não é austeridade, é ordem, e dizer isso com clareza costuma ser o momento em que esse cliente percebe que você não está ali para vender nada a ele.
Vale a pena se especializar no nicho de médicos e dentistas?
Vale, e por uma razão que não é o tamanho do cheque. Quem atende sempre o mesmo tipo de cliente reconhece o caso mais rápido, erra menos no primeiro encontro e fala a língua de quem está na frente, e isso aparece na conversa antes de aparecer no resultado. O cliente de consultório tem três características que sustentam uma carteira de clientes: ele tem o problema que você resolve, tem como pagar pelo serviço e convive com outros profissionais iguais a ele, o que torna a indicação natural. Dito isso, nicho é escolha de posicionamento e não de método, e ele não substitui o trabalho de prospecção. Começar a falar com esse público não dispensa nenhuma das etapas que trazem o primeiro cliente, e quem se especializa antes de ter atendido ninguém costuma descobrir isso tarde.
Conclusão
A pergunta que abre este artigo tem uma resposta curta, e ela é libertadora para quem está começando. Educação financeira para médicos não é outra disciplina, e você não precisa de uma técnica que ainda não aprendeu para atender esse cliente. O diagnóstico é o mesmo, a ordem é a mesma, as réguas são as mesmas, e o que muda cabe em duas frases.
A primeira é que o dinheiro do consultório e o dinheiro da casa precisam parar de ser o mesmo dinheiro. Isso se resolve com duas contas e um pró-labore definido, e enquanto essa separação não existir, nenhum número que você levantar significa o que parece significar, porque você estará somando a vida de uma pessoa com a operação de uma empresa.
A segunda é que a escala muda o que o erro custa, mas não muda o que o erro é. Um custo de vida alto produz uma reserva-alvo alta, um financiamento recente produz um comprometimento alto, e nenhuma dessas duas coisas descreve o caráter de quem está na sua frente. Devolver isso com o número do lado é o que transforma um diagnóstico duro numa conversa que o cliente consegue usar.
E fica a parte que vale para o nicho inteiro, não só para o caso. Esse cliente convive o dia inteiro com gente que quer vender alguma coisa para ele, e chega à reunião esperando mais do mesmo. O educador que levanta antes de opinar, que diz com todas as letras onde o próprio trabalho termina e que encaminha sem sumir acaba se destacando por um motivo bem simples: ele é o único na sala que não está vendendo um produto financeiro.
O que levar para a próxima reunião
Se você tem um cliente desse perfil na agenda, três perguntas organizam o seu próximo encontro. A primeira é se o pró-labore já existe, e se a resposta for não, esse é o trabalho inteiro da reunião, porque nada do que vem depois funciona sem ele. Não tente avançar para orçamento no mesmo dia.
A segunda é qual foi a resposta dele sobre quanto tempo por semana consegue dedicar às finanças. Esse número é o teto do que vocês podem combinar, e com esse perfil ele costuma ser baixo, então escolha uma frente só para o primeiro mês. Uma vitória pequena e cumprida vale mais do que quatro frentes abandonadas.
A terceira é se você já fez a pergunta da fatura integral. Se o cliente quer falar de investimento, de previdência ou de milhas e você ainda não sabe em quantos dos últimos três meses ele pagou a fatura inteira, você tem uma pergunta para fazer antes de qualquer outra conversa. Ela leva dez segundos e muda a pauta da reunião.