Resumo rápido
  • A reserva entra depois da dívida cara, e não antes. Não se guarda dinheiro rendendo o CDI enquanto o rotativo cobra muitas vezes isso do outro lado, e essa ordem é uma dependência real, não uma escolha de didática.
  • A conversa abre com uma pergunta só: se a renda parasse hoje, por quantos meses o cliente mantém a vida dele sem vender nada e sem pegar emprestado. O número que ele fala é quase sempre maior do que o número real.
  • A reserva se mede em meses de custo de vida, ou seja, tudo o que o cliente gasta num mês normal, e nunca em valor absoluto solto.
  • As faixas mudam com o tipo de renda: de 3 a 4 meses para quem é CLT, de 6 a 8 meses para autônomo e empresário, chegando a 12 conforme a situação.
  • A meta grande começa pequena: um mês de custo de vida primeiro, depois dois, depois o piso de três. R$ 5.150 com R$ 600 por mês chegam em pouco mais de oito meses.
  • O aporte sai do orçamento, e não da força de vontade. Quando o que sobra deixa a meta longe demais, o trabalho volta um passo, para os limites por categoria.
  • Emergência é o que não tem data: renda que para, saúde e conserto que trava a vida. IPVA, matrícula e viagem têm data, e o lugar delas é a provisão mensal, nunca a reserva.
  • A reserva nunca fica parada: ela precisa render pelo menos 100% do CDI ou a Selic, com liquidez diária, e ficar separada do dia a dia. O lugar exato é decisão do cliente, e nome de produto não sai da sua boca.

A reserva de emergência é o pilar que o cliente mais concorda e menos executa. Ninguém discute a ideia, todo mundo acha que precisa de uma, e mesmo assim ela costuma ser a parte do plano que fica para o mês que vem. Ela é a única meta que não compra nada, não paga nada e não muda a vida de ninguém no dia em que o dinheiro entra, e é por isso que ela perde de todas as outras.

O erro do educador que começa é tratar a reserva como um conselho, e não como um processo. Ele explica a importância, cita os meses, o cliente concorda com a cabeça, e três reuniões depois a reserva continua com o mesmo saldo. Não faltou convencimento, faltou método: uma ordem certa para ela entrar no plano, um número que a pessoa consiga alcançar e uma regra de uso combinada antes de a primeira emergência aparecer.

Neste artigo eu abro o caminho que eu sigo em seis passos, na ordem em que eles acontecem na sessão. Ele responde, na ordem: quando a reserva entra no plano em relação às dívidas, como abrir a conversa sem teoria, como calcular o tamanho certo em meses de custo de vida, como transformar o total em uma meta com data e aporte mensal, de onde sai o dinheiro e onde ele fica rendendo, e o que conta como emergência. Com um caso completo, número por número, para você acompanhar a conta.

Os seis passos, na ordem em que eles acontecem
  • 1. Confirmar a hora de entrar. A reserva vem depois da dívida cara, e antes de qualquer objetivo de longo prazo.
  • 2. Abrir a conversa com a pergunta de liquidez. Por quantos meses o cliente sustenta a vida dele se a renda parar hoje.
  • 3. Calcular o tamanho em meses de custo de vida. Primeiro o custo de vida, depois a faixa que vale para aquele tipo de renda.
  • 4. Transformar o total em meta com data. Um mês primeiro, depois três, com o aporte mensal que a conta exige.
  • 5. Decidir de onde sai o dinheiro, e onde ele fica. O aporte sai do orçamento; o lugar tem três critérios, e a escolha é do cliente.
  • 6. Combinar a regra de uso e a recomposição. O que é emergência, o que não é, e o que acontece depois que a reserva for usada.

Por que o cliente nunca começa a reserva?

Porque ela compete com tudo o que é mais urgente e com tudo o que é mais gostoso, ao mesmo tempo. A parcela do cartão tem data e tem juros, então ela ganha da reserva todo mês por urgência. A viagem tem foto e tem desejo, então ela ganha por prazer. A reserva não tem nem uma coisa nem outra: ela é dinheiro que fica guardado esperando um dia ruim que o cliente prefere acreditar que não vai chegar.

Existe um segundo motivo, e ele é do educador. Quando a reserva é apresentada como um total, três ou quatro meses de tudo o que a pessoa gasta, o número assusta e a pessoa desiste antes de começar. Uma cliente que gasta R$ 5.150 por mês ouve "quinze mil reais" e conclui, com razão, que aquilo não é para ela, só que o problema não é a cliente, é a falta de degrau, e é o que o passo 4 corrige.

E existe um terceiro motivo, o mais silencioso. Reserva sem regra de uso é reserva que evapora: o cliente guarda por quatro meses, aparece um IPVA ou uma promoção de passagem, ele saca "só dessa vez" e a reserva volta ao zero com a sensação de que guardar não adianta. Quem nunca combinou o que é emergência não tem como cobrar que a reserva sobreviva à primeira tentação.

O caminho que vem a seguir ataca os três motivos nessa ordem: coloca a reserva no lugar certo da fila, quebra a meta em degraus e combina a regra antes de o dinheiro existir.

Quando a reserva entra no plano?

Depois das dívidas caras, e essa é a primeira decisão do atendimento. A base financeira que eu ensino tem cinco pilares, nesta ordem: quanto ganha, quanto gasta, orçamento, quitar dívidas e construir reserva. A reserva é o quinto porque não se constrói reserva enquanto a dívida cara está sangrando o mês, já que o dinheiro guardado rende muito menos do que essa dívida custa.

Faça a conta com o cliente, porque a conta convence mais do que a regra. Um rotativo de cartão ou um cheque especial custa, em geral, uma taxa por mês que uma aplicação de reserva não chega perto de pagar. Cada real guardado na reserva enquanto essa dívida existe é um real que rende pouco de um lado e paga muito do outro, e o cliente entende isso na hora quando vê os dois números lado a lado.

Isso não significa que a reserva some do plano. O que eu faço com o cliente endividado é cadastrar a reserva como meta desde a primeira reunião, com data prevista para depois da quitação, para ela aparecer todo mês na tela e ninguém esquecer que ela existe. O caminho para a quitação, com a leitura do comprometimento de renda e a ordem de ataque, eu detalhei em como ajudar o cliente a sair das dívidas.

Uma exceção prática que vale registrar: dívida barata não trava a reserva. Um financiamento de imóvel com taxa baixa, uma parcela de carro dentro de uma faixa administrável ou um consignado com custo modesto não impedem que a reserva comece. Nesses casos a conta muda de sinal, então a segurança de ter alguns meses guardados vale mais do que antecipar parcela. Quem decide o que é caro e o que é barato é o número da taxa, e não a sensação do cliente.

Como abrir a conversa da reserva?

Com uma pergunta só, e sem nenhuma teoria antes dela. A pergunta que eu faço, com essas palavras, é esta:

A pergunta que abre a conversa
  • "Se a sua renda parasse hoje, por quantos meses você conseguiria manter a sua vida como ela é, sem vender nada e sem pegar dinheiro emprestado?"

O cliente responde, e quase sempre o número que ele fala é maior do que o real. A memória dele soma o que está na conta, o que "dá para pedir para alguém" e o que ele acha que consegue cortar, e devolve um número redondo, tipo "uns dois meses". Aí você pega o que já está na mão de vocês desde o levantamento de dados financeiros e faz a conta na frente dele, e é nesse momento que a reserva deixa de ser conceito e vira problema concreto.

Vamos ao caso que vai atravessar o artigo inteiro. A Carla tem 34 anos, é CLT com renda líquida de R$ 5.400 por mês, gasta R$ 5.150 e procurou ajuda porque "nunca sobra nada", mesmo sem ter dívida grande. Quando eu fiz a pergunta, ela respondeu "uns dois meses, acho".

O que a Carla tem disponível de verdade
  • Na conta corrente: R$ 1.100 no dia da reunião, e esse dinheiro ainda vai pagar contas do mês.
  • Em aplicação com liquidez diária: nada.
  • Em bens que se vendem rápido sem perder valor: nada.
  • O custo de vida mensal dela, que vem no próximo passo: R$ 5.150.
  • O resultado: R$ 1.100 dividido por R$ 5.150 dá 0,2 mês, ou seja, seis dias. Não são dois meses, são seis dias.

Repare no que aconteceu com a conversa. Eu não expliquei o que é reserva de emergência, não citei nenhuma faixa e não falei de investimento, e mesmo assim a Carla saiu desse minuto sabendo exatamente qual é o problema dela. A pergunta faz o trabalho que a teoria não faz, porque a resposta é dela, e não minha.

O mesmo eixo de liquidez aparece quando você olha o patrimônio do cliente inteiro. Muita gente tem "patrimônio" e não tem reserva nenhuma, porque tudo está num carro financiado, num consórcio pago pela metade ou num imóvel que leva meses para vender. Concentração e liquidez são as duas perguntas dessa leitura, e a segunda é a que abre a porta da reserva.

De quantos meses é a reserva do cliente?

Depende do tipo de renda, e a conta é sempre em meses de custo de vida, nunca em valor absoluto solto. A régua que eu uso tem duas faixas: de 3 a 4 meses para quem é CLT, e de 6 a 8 meses para quem é autônomo ou empresário, podendo chegar a 12 conforme a situação. O caso do autônomo tem detalhes próprios, e eu tratei dele em como organizar as finanças do cliente com renda variável.

O denominador é o custo de vida, e não só o custo fixo. Custo de vida é tudo o que o cliente gasta num mês normal: moradia, contas, mercado, transporte, saúde, e também restaurante, lazer, roupa e assinatura. A reserva existe para ele atravessar a emergência mantendo a vida dele de pé, e não para ele sobreviver no mínimo. Emergência já é um mês difícil; a reserva serve justamente para ele não precisar mudar de vida no meio dela.

Então o primeiro trabalho é fechar, com o cliente, o número do custo de vida. Ele sai da média dos últimos meses, nunca do mês mais barato que ele lembra. Com os gastos já categorizados, e o padrão que eu uso está em como categorizar os gastos do cliente, a conta leva dez minutos. No caso da Carla ficou assim:

O custo de vida da Carla, R$ 5.150 por mês
  • Aluguel com condomínio: R$ 1.650.
  • Contas da casa (luz, água, internet e celular): R$ 380.
  • Mercado: R$ 880.
  • Transporte: R$ 350.
  • Plano de saúde e remédio de uso contínuo: R$ 440.
  • Restaurantes e delivery: R$ 520.
  • Assinaturas: R$ 140.
  • Roupas e cuidados pessoais: R$ 390.
  • Lazer e presentes: R$ 400.

Agora a faixa. A Carla é CLT, então a reserva-alvo dela vai de 3 a 4 meses de R$ 5.150, ou seja, de R$ 15.450 a R$ 20.600. Se ela fosse autônoma com o mesmo custo de vida, a faixa iria de R$ 30.900 a R$ 41.200, e poderia chegar a R$ 61.800 numa situação de renda muito instável. A diferença entre os dois perfis não é detalhe de cálculo, é uma diferença de projeto de vida, e dizer isso na primeira reunião evita a frustração de daqui a um ano.

Três regras de leitura que eu repito nessa hora, porque são as que mais geram dúvida:

  • Parcela que não para quando a renda para entra no custo de vida. Um financiamento de imóvel, uma mensalidade escolar dos filhos e um consignado continuam vencendo durante a emergência, então eles fazem parte do que a reserva precisa cobrir.
  • O custo de vida é a média, e não o pico. Um mês com viagem ou com IPVA não entra na média como se fosse normal; essas despesas têm tratamento próprio, no passo 6, e a reserva não é o lugar delas.
  • Reserva exige liquidez. Imóvel, consórcio contemplado e previdência com carência somam patrimônio e não são reserva de emergência, porque não resolvem uma emergência de terça-feira.

Como transformar a reserva em meta com data?

Dividindo a meta grande em degraus e dando data ao primeiro degrau. R$ 15.450 é um número que a Carla nunca guardou na vida, e uma meta assim, sozinha na tela, produz o efeito que eu descrevi lá em cima: parece impossível e por isso não começa. A regra que eu sigo é meta pequena primeiro: um mês de custo de vida, depois dois, depois o piso de três, e cada degrau com a própria data.

Reserva é meta, e meta vira objetivo cadastrado, com nome, valor alvo, valor atual e data. É isso que tira a reserva do campo do conselho e coloca no campo do plano, porque a partir daí ela tem um número que sobe todo mês e uma data que cobra. A conta do aporte é a mais simples possível: o valor que falta dividido pelo número de meses até a data, sem contar rendimento, para a conta ficar conferível e para o rendimento, quando vier, ser folga e não premissa.

Com a Carla a conta foi esta. O primeiro degrau é um mês de custo de vida, R$ 5.150. O que sobra no orçamento dela hoje são R$ 250 por mês, só que com esse aporte o primeiro degrau levaria quase dois anos, o que é lento demais para a pessoa sentir que está funcionando. Então a conversa voltou um passo, para o orçamento, e é isso que o próximo passo mostra: com R$ 600 por mês, o primeiro degrau chega em pouco mais de oito meses.

A escada da reserva da Carla Custo de vida de R$ 5.150 por mês, CLT. Ritmo combinado: R$ 600 por mês, mais o 13º 1 mês de custo de vida R$ 5.150 chega em 8 meses 3 meses, o piso da faixa R$ 15.450 chega em 1 ano e meio 4 meses, o teto da faixa R$ 20.600 chega no 2º ano Cada degrau tem a própria data, e o próximo só entra no plano quando o anterior está pronto.
A meta grande vira três degraus com data. O primeiro degrau é o que muda o comportamento, porque é a primeira vez que a pessoa vê um mês inteiro da própria vida guardado, e é depois dele que a Carla passa a acreditar nos outros dois.

Falta explicar o ritmo do desenho, porque ele tem uma premissa. O décimo terceiro da Carla, líquido, fica na casa de R$ 4.500, e o combinado foi que ele entra inteiro na reserva enquanto o piso de três meses não estiver pronto. Com R$ 600 por mês durante doze meses, mais esse valor, ela chega a R$ 11.700 em um ano, e o piso de R$ 15.450 fica pronto por volta do mês 19, quando o guardado passa de R$ 15.900. O segundo décimo terceiro, no fim do segundo ano, leva a reserva a R$ 23.400, acima do teto de R$ 20.600, e a partir daí o aporte da reserva pode migrar para os outros objetivos.

Repare no que a data faz pela conversa. Guardar quatro meses de custo de vida é um desejo, enquanto R$ 600 no dia 5 de cada mês, mais o décimo terceiro, com o primeiro degrau em maio, é um plano. E plano com data é o que o cliente consegue conferir sozinho, sem depender de você lembrar a ele.

De onde sai o dinheiro, e onde ele fica?

O aporte sai do orçamento, e não da força de vontade. Quando a sobra do mês deixa a meta longe demais, como os R$ 250 da Carla, o erro é pedir mais esforço para o cliente. O certo é voltar um passo e olhar os limites por categoria, porque é lá que o dinheiro do aporte está. O orçamento mensal é o terceiro pilar da base justamente para que o quinto tenha de onde sair.

No caso da Carla, a conversa foi sobre limite, não sobre corte. Restaurantes e delivery saíram de R$ 520 para um limite de R$ 300, assinaturas de R$ 140 para R$ 60, e roupas e cuidados de R$ 390 para R$ 340. São R$ 350 a mais por mês, que somados aos R$ 250 que já sobravam viram os R$ 600 do aporte. Ela não deixou de sair, deixou de sair sem limite, e a diferença entre as duas coisas é o que sustenta o plano por um ano e meio.

Uma observação sobre esse ajuste, porque ela confunde muita gente. O custo de vida que dimensiona a reserva continua sendo o de antes do ajuste, os R$ 5.150, e não os R$ 4.800 de depois, porque a reserva precisa cobrir a vida que a Carla leva e não a versão apertada dela. O limite existe para criar o aporte, e a meta existe para proteger a vida inteira; são duas contas, e misturar as duas encolhe a reserva sem ninguém perceber.

O segundo lugar de procurar é o dinheiro que não é do mês: décimo terceiro, restituição de imposto, comissão de fim de ano, um trabalho extra. Esse dinheiro é o acelerador da reserva enquanto ela não está pronta, e combinar isso antes de ele cair na conta é o que evita a discussão em dezembro. Esse combinado também é o que fecha o ciclo com quem está construindo o orçamento pela primeira vez, como eu mostrei em como montar o fluxo de caixa pessoal do cliente.

Agora, onde a reserva fica. Essa pergunta vai aparecer, o cliente vai perguntar "em qual banco eu deixo", e a sua resposta tem três critérios e nenhum nome:

  • Liquidez diária. Disponível a qualquer momento, sem carência, sem prazo para resgatar e sem penalidade por sacar, porque emergência não avisa com trinta dias de antecedência.
  • Rendendo pelo menos 100% do CDI ou a taxa Selic. Reserva nunca fica parada: dinheiro parado na conta corrente perde para a inflação todo mês, e a reserva precisa pelo menos manter o valor dela no tempo.
  • Separada do dinheiro do dia a dia. Reserva misturada com a conta corrente vira gasto de fim de mês, e o separar é comportamental antes de ser financeiro.

Você explica os critérios, faz a conta de quanto ela rende nesse patamar e deixa a escolha do lugar com o cliente. Se ele quiser apoio nessa escolha, existe profissional credenciado para isso, e você diz isso com todas as letras. Nome de banco, de aplicação ou de corretora não sai da sua boca, porque educar sobre a categoria é o seu trabalho e indicar o produto é outra profissão, regulada pela CVM. A linha inteira está em até onde vai o seu papel na decisão de onde deixar a reserva.

O que é emergência, e o que não é?

É o que não tem data, e essa regra precisa estar combinada por escrito antes de a reserva existir. Reserva sem regra de uso é reserva que evapora no primeiro dezembro, e o problema nunca é a emergência de verdade, é a despesa previsível que se disfarça de emergência porque chegou sem provisão.

O combinado que eu fecho com o cliente cabe numa tela:

A regra de uso, combinada antes do primeiro real guardado
  • Sai da reserva: a renda que para ou cai de forma inesperada; um problema de saúde na família; um conserto sem o qual a vida ou o trabalho param, como o carro de quem trabalha com ele ou a geladeira.
  • Não sai da reserva: IPVA, IPTU, seguro, matrícula, material escolar, festas de fim de ano, viagem, presente, troca de celular e promoção. Tudo isso tem data ou tem escolha, e o lugar disso é a provisão mensal.
  • Depois de usar: o aporte da reserva volta para o topo do orçamento, antes de qualquer sonho ou desejo, até ela chegar de novo ao patamar combinado.
  • Quando o custo de vida mudar: mudança de casa, filho, aumento de aluguel ou separação, a meta se recalcula, porque a reserva é medida em meses de um custo que acabou de mudar.

A segunda linha é a que mais trabalho dá, e é a que mais vale. As despesas que não caem todo mês não são imprevistos, elas têm data, e o que acontece com quase todo mundo é que elas chegam sem provisão e viram cartão parcelado, que vira rotativo, que vira dívida. Então o tratamento é mapear as despesas do ano inteiro, dividir cada uma pelo número de meses até a data e guardar a parcela todo mês, em separado da reserva. A reserva cobre o que não tem data; a provisão cobre o que tem.

Com a Carla, o mapa do ano tinha quatro itens: IPVA do carro, seguro, uma viagem de família em julho e as festas de dezembro. Somados, eles chegavam perto de R$ 4.800 no ano, ou R$ 400 por mês de provisão. Esse valor entrou no orçamento como uma categoria própria, e foi ele que impediu que a viagem de julho comesse o segundo degrau da reserva. Quando o cliente vê os meses que furam antes de eles chegarem, ele para de repetir o ciclo.

E a terceira linha, a recomposição, é a que tira a culpa da conversa. Usar a reserva numa emergência de verdade é o plano funcionando, e não falhando, e o cliente que usou precisa ouvir isso de você antes de ouvir qualquer outra coisa. O que muda depois do uso é só a ordem do orçamento, e a reserva volta a ser a primeira da fila até estar cheia de novo.

Como acompanhar a reserva mês a mês?

Com a reserva na tela do cliente, e não só na sua planilha. O que mantém a reserva viva depois da reunião é o cliente ver o número subir todo mês, e isso não se resolve com você mandando um lembrete: se resolve com a meta cadastrada num lugar que ele abre sozinho, com o valor atual, o valor alvo, a data e o quanto falta.

Existe um detalhe de condução que vale mais do que parece. Quando a reserva é o único objetivo cadastrado, ela briga com a viagem e com o carro novo na cabeça do cliente, e perde. Quando ela está cadastrada ao lado dos outros objetivos, cada um com a própria prioridade, a briga acaba, porque a reserva entra como essencial e a viagem entra como sonho, e as duas cabem, em ritmos diferentes. Você não precisa dizer não para a viagem; a classificação diz por você.

A reserva na tela do cliente

Karppa Flow: a reserva cadastrada como objetivo, com data e aporte mensal

Na tela Objetivos, você cadastra a reserva com prioridade Essencial, valor alvo, valor atual e data alvo. O Flow mostra o progresso em cada cartão e responde quanto guardar por mês para chegar lá na data, e a viagem entra ao lado como Sonho, sem brigar com a reserva.

Conhecer o Karppa Flow
Tela de Análises do Karppa Flow, com a composição de gastos e receitas do cliente, de onde sai o custo de vida que dimensiona a reserva

No acompanhamento, a reserva ganha uma linha própria em toda reunião: quanto estava, quanto entrou, quanto rendeu, quanto está e se a data do degrau continua de pé. É uma leitura de dois minutos, e ela é o que separa o cliente que guardou por seis meses seguidos do cliente que guardou dois e parou. Se o número não subiu, a conversa não é sobre disciplina, é sobre o que aconteceu com o orçamento naquele mês, e a resposta quase sempre está numa categoria que estourou o limite.

E quando o cliente não faz o aporte por dois meses seguidos, o problema raramente é a reserva. Ou o aporte ficou grande demais para o orçamento real, ou apareceu uma despesa com data que ninguém tinha mapeado, ou o cliente está evitando o assunto por algum motivo que ainda não apareceu na conversa. As três situações têm condução própria, e eu tratei delas em o que fazer quando o cliente não segue o plano financeiro.

Quais erros mais aparecem nessa conversa?

São seis, e eu cometi a maioria deles nos meus primeiros atendimentos. Vale ler a lista antes da próxima reunião, porque nenhum deles é de matemática.

  • Calcular sobre o mínimo de sobrevivência. Reserva feita só sobre o custo fixo cobre a casa e não cobre a vida, e o cliente descobre isso no segundo mês da emergência, quando corta tudo e ainda assim o dinheiro acaba antes do previsto.
  • Apresentar a meta grande sem degrau. "Você precisa de R$ 15.450" é um número que assusta; "R$ 5.150 até maio" é um número que se guarda.
  • Mandar guardar enquanto o rotativo está aberto. O cliente guarda rendendo o CDI e paga a dívida cara do outro lado, e o plano perde dinheiro todo mês com cara de plano bom.
  • Não combinar a regra de uso. A reserva vira a fonte do IPVA e da viagem, e o cliente conclui que guardar não adianta.
  • Deixar a reserva parada na conta corrente. Ela perde para a inflação e vira gasto na terceira semana, e não por má intenção.
  • Responder "em qual banco". É o erro que expõe você, o cliente e a sua reputação, e o ganho é zero, porque não é isso que ele está comprando de você.

Por que a reserva é o último pilar da base?

Porque cada pilar precisa do anterior instalado, e instalado significa ter rodado na vida do cliente, não só na reunião. Não se faz orçamento sem conhecer o gasto, não se ataca dívida sem orçamento, porque não se sabe quanto sobra para atacar, e não se constrói reserva enquanto a dívida cara está sangrando o mês. Essa cadeia é a razão de a mentoria financeira ter seis meses e não seis semanas.

O objetivo dos seis meses, no pilar da reserva, não é o valor final. É o hábito de guardar existir pela primeira vez na vida daquela pessoa, e o primeiro degrau da escada é a prova de que ele existe. Quando a Carla vê um mês inteiro da própria vida guardado, ela deixa de ser alguém que "nunca conseguiu guardar" e passa a ser alguém que guarda, e essa mudança de identidade vale mais do que os R$ 5.150.

Nada disso se improvisa na primeira reunião em que o cliente pergunta "e a reserva?". A ordem dos pilares, a pergunta de liquidez, a conta com a base certa, os degraus e a regra de uso são peças de um método que já foi testado em muita gente. E a diferença entre o educador que conduz e o que aconselha é ter esse roteiro antes de precisar dele.

Os cinco pilares, na ordem certa

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Perguntas frequentes

De quantos meses precisa ser a reserva de emergência do cliente?

De 3 a 4 meses de custo de vida para quem é CLT, e de 6 a 8 meses para quem é autônomo ou empresário. Em situação de renda muito instável, a faixa do autônomo pode chegar a 12 meses. A conta é sempre em meses, nunca em valor absoluto solto, e o denominador é o custo de vida mensal, tudo o que o cliente gasta num mês normal, e não só o custo fixo. Uma cliente CLT com custo de vida de R$ 5.150 tem a reserva-alvo entre R$ 15.450 e R$ 20.600, e o piso de três meses é a primeira meta grande do plano.

A reserva se calcula sobre o custo de vida ou sobre o custo fixo?

Sobre o custo de vida, e essa escolha muda o que a reserva entrega no dia em que ela for usada. O custo fixo cobre a casa: moradia, contas, mercado, transporte e saúde. O custo de vida cobre a vida: tudo isso mais restaurante, lazer, roupa e assinatura, ou seja, o mês normal do cliente. A reserva existe para ele atravessar a emergência mantendo a vida de pé, e não para ele sobreviver no mínimo, porque emergência já é um mês difícil e ele não deveria precisar mudar de vida no meio dela. Na cliente do artigo, que gasta R$ 5.150 por mês, a faixa de 3 a 4 meses vai de R$ 15.450 a R$ 20.600.

O cliente deve montar a reserva antes ou depois de quitar as dívidas?

Depois das dívidas caras, e essa ordem é uma dependência real, não uma preferência didática. Não se constrói reserva enquanto uma dívida de rotativo ou de cheque especial está sangrando o mês, porque o dinheiro guardado rende muito menos do que essa dívida custa, e cada real parado na reserva é um real pagando juros do outro lado. A sequência dos cinco pilares da base financeira é quanto ganha, quanto gasta, orçamento, quitar dívidas e construir reserva, e cada um precisa do anterior instalado. O que eu faço com o cliente endividado é deixar a reserva cadastrada como meta, com data prevista para depois da quitação, para ela não sumir do plano.

Quanto o cliente deve guardar por mês para a reserva?

O valor que sai da conta entre o tamanho da meta e o prazo, e não um percentual fixo da renda. Você divide o valor que falta pelo número de meses até a data combinada, sem contar rendimento, para a conta ficar simples e conferível. Uma meta de um mês de custo de vida, R$ 5.150, com R$ 600 por mês, chega em pouco mais de oito meses. Já o piso de três meses, R$ 15.450, chega por volta de um ano e meio, se o décimo terceiro entrar inteiro na reserva. Se o aporte que cabe no orçamento deixa a meta longe demais, o trabalho volta um passo, para o orçamento, e não para a motivação do cliente.

Onde o cliente deve deixar a reserva de emergência?

Em um lugar que atenda três critérios, e a escolha do lugar é do cliente. A reserva precisa ter liquidez diária, disponível a qualquer momento, sem carência e sem prazo para resgatar. Ela nunca fica parada: precisa render pelo menos 100% do CDI ou a taxa Selic, porque dinheiro parado na conta corrente perde para a inflação todo mês. E precisa ficar separada do dinheiro do dia a dia, já que reserva misturada com a conta corrente vira gasto de fim de mês. O Educador Financeiro explica esses critérios, faz a conta de quanto ela rende nesse patamar e deixa a decisão do produto com o cliente ou com um profissional credenciado. Nome de banco, de aplicação ou de corretora não sai da boca do educador, porque isso é recomendação de investimento e é outra profissão.

O que conta como emergência para usar a reserva?

Três situações, combinadas por escrito antes de a reserva existir. A primeira é a renda que para ou cai de forma inesperada; a segunda, um problema de saúde na família; a terceira, um conserto sem o qual a vida ou o trabalho param, como o carro de quem trabalha com ele. O que não conta é tudo o que tem data ou tem escolha: IPVA, matrícula, viagem, presente, promoção e troca de celular. Essas despesas são previsíveis, e é por isso que o lugar delas é a provisão mensal das despesas que não caem todo mês, nunca a reserva. A regra existe para a reserva sobreviver ao primeiro dezembro.

Despesa como IPVA sai da reserva de emergência?

Não, porque IPVA não é imprevisto, é uma despesa com data. O mesmo vale para IPTU, seguro do carro, matrícula, material escolar, festas de fim de ano e viagem de férias: todas chegam em mês conhecido e em valor conhecido. O que acontece com quase todo mundo é que elas chegam sem provisão e viram cartão parcelado, que vira rotativo, que vira dívida. O tratamento certo é mapear essas despesas do ano inteiro, dividir cada uma pelo número de meses até a data e guardar a parcela todo mês, em separado da reserva. A reserva cobre o que não tem data; a provisão cobre o que tem.

O que fazer quando o cliente usa a reserva?

Recompor, e sem culpa, porque usar a reserva numa emergência de verdade é o plano funcionando, e não falhando. O que muda depois do uso é a ordem do orçamento: o aporte da reserva volta para o topo, antes de qualquer objetivo de sonho ou desejo, até ela chegar de novo ao patamar combinado. Se o uso aconteceu por algo que não era emergência, a conversa é outra, e ela é sobre a regra de uso, não sobre o valor. E, sempre que o custo de vida mudar, por mudança de casa, filho ou aumento de aluguel, a meta se recalcula, porque a reserva é medida em meses de um custo que acabou de mudar.

O que levar para a próxima reunião

Se você tem um cliente sem reserva marcado para esta semana, o caminho cabe em seis movimentos. Confirme que a dívida cara já foi tratada ou está na fila antes da reserva. Faça a pergunta de liquidez e calcule, na frente dele, por quantos meses ele sustenta a vida dele hoje. Feche o custo de vida pela média dos últimos meses e aplique a faixa do tipo de renda. Cadastre o primeiro degrau, um mês de custo de vida, com data e aporte. Encontre o aporte nos limites por categoria, e não na motivação. E combine por escrito o que é emergência, o que não é e o que acontece depois do uso.

Nenhum desses movimentos é difícil, e é justamente por isso que eles são pulados. Eles parecem óbvios até a reunião em que o cliente diz "uns dois meses" e o número real é seis dias. O que separa quem conduz de quem aconselha é ter o processo escrito e repetido em todo atendimento, porque é a repetição que transforma jeito pessoal em método. E é o método que o cliente está pagando, já que a ideia de guardar dinheiro ele já tinha: o que ele nunca teve foi alguém na sala capaz de transformar essa ideia em um número com data.