Resumo rápido
  • O cliente é o casal, e não quem ligou para você. Quem procurou o serviço costuma ser o lado que já estava incomodado, e tratar essa pessoa como dona do plano coloca a outra na posição de réu na primeira reunião.
  • São três bolsos, e não dois: o que entra e sai de cada um, mais a conta da casa, que é o custo que os dois sustentam juntos. Quase toda confusão de casal nasce de misturar o terceiro com os dois primeiros.
  • Meio a meio parece justo e quase nunca é. Num casal de R$ 6.200 e R$ 3.100, dividir R$ 4.650 ao meio consome 37,5% da renda de um e 75% da renda do outro.
  • Dividido por proporção de renda, o esforço é que fica igual: R$ 3.100 de um lado e R$ 1.550 do outro, exatamente 50% da renda de cada um.
  • A conta da família esconde a conta de quem ganha menos. R$ 1.150 de parcelas são 37,1% da renda individual, faixa de atenção, e 12,4% da renda da família, faixa administrável.
  • A reserva da família é uma só: de 3 a 4 meses do custo de vida da família com os dois CLT, o que no exemplo, com R$ 8.900 de custo de vida, vai de R$ 26.700 a R$ 35.600.
  • Quanto cobrar de um casal: um contrato só, no preço de tabela, e no acompanhamento contínuo a base dos 5% é a renda da família, ou seja, até R$ 465 num casal que soma R$ 9.300.
  • As duas pessoas precisam ver o mesmo plano, senão quem não tem acesso vira espectador e depois é acusado de não colaborar.
  • Você conduz os números, e o casamento não é seu. Escutar o que é da relação faz parte; tratar a relação, não.

A sessão com um casal trava quase sempre no mesmo ponto, e não é o ponto que o educador iniciante espera. Ele se prepara para a matemática, ensaia como explicar juros e categorias, e o que aparece na sala é uma pergunta bem mais simples e bem mais difícil: quem paga o quê aqui dentro. É uma pergunta de dinheiro que soa como uma pergunta de justiça, e por isso ela derruba a reunião.

O erro de origem é tratar o casal como dois atendimentos individuais acontecendo ao mesmo tempo. Não são. Duas pessoas com renda própria, histórico próprio e medo próprio sustentam juntas um terceiro orçamento, o da casa, e é esse terceiro que decide se o plano funciona. Enquanto ele não estiver separado dos outros dois na sua planilha e na sua cabeça, cada conversa sobre gasto vira uma conversa sobre culpa.

Neste guia eu abro o caminho inteiro que eu uso quando são duas pessoas na sala. Ele responde, na ordem: quem é o cliente quando existem dois nomes no contrato, como levantar os números de cada um sem transformar a reunião em acareação, como montar a conta da casa antes de discutir divisão, por que a divisão proporcional resolve o que meio a meio não resolve, como ler a dívida de quem ganha menos, quanto cobrar, como os dois acompanham o mesmo plano depois que você sai da sala e onde exatamente termina o seu papel de educador. Com um caso completo, número por número, para você acompanhar a conta.

As cinco regras que eu sigo numa sessão a dois
  • 1. O cliente é o casal, e não quem ligou. Quem procurou o serviço não é o dono do plano, mesmo que tenha sido quem pagou.
  • 2. Levantar pode ser separado, decidir não pode. Cada um preenche a própria ficha sozinho, e nenhuma decisão sai da sala sem os dois presentes.
  • 3. São três bolsos, o dele, o dela e o da casa. A conta da casa ganha valor próprio antes de qualquer conversa sobre quem paga o quê.
  • 4. A conta da casa se divide por proporção de renda. Você mostra o cenário meio a meio e o proporcional com o esforço de cada um, e a escolha é do casal.
  • 5. Você conduz os números, e a relação não é sua. Escutar o que é do vínculo faz parte do trabalho; tratar o vínculo, não.

Por que atender um casal é outro trabalho?

Porque muda o objeto do serviço, e não só o número de pessoas. No atendimento individual você organiza a vida financeira de alguém que decide sozinho. Num casal, você organiza uma vida financeira que é decidida por duas pessoas que nem sempre querem a mesma coisa, e a maior parte do seu trabalho passa a ser transformar duas vontades em um combinado que sobrevive ao mês.

Existem três diferenças concretas, e vale conhecer as três antes de marcar a primeira reunião.

  • Os dados chegam pela metade. Cada um sabe bem a própria renda e mal a do outro, e quase ninguém sabe de cabeça quanto a casa custa por mês. É comum o casal errar o próprio custo fixo em mais de mil reais, para menos, porque a memória soma o que dói e esquece o que debita sozinho.
  • Existe uma versão oficial e uma versão real. Na primeira reunião você ouve a versão que o casal conta em público, que costuma ser mais organizada do que a vida. A versão real aparece quando os extratos chegam, e a sua reação nesse momento decide se eles continuam contando a verdade.
  • Toda decisão precisa de dois donos. Um plano que só um dos dois aceitou não é um plano, é uma promessa que uma pessoa fez em nome da outra. Ele funciona por umas três semanas, e quando quebra a culpa recai sobre quem não foi consultado.

Uma frase que eu repito muito com quem começa a atender casal: você não foi contratado para dizer quem está certo. Você foi contratado para tirar a conversa do campo da razão e colocar no campo do número, porque enquanto o assunto for quem gasta mais não existe reunião possível, já que os dois têm argumento. Quando o assunto passa a ser quanto a casa custa e de onde sai esse dinheiro, existe.

Quando o trabalho é de casal, e quando são dois trabalhos?

Antes de aplicar qualquer coisa deste artigo, confirme que existe dinheiro junto. O trabalho de casal só se justifica quando as duas vidas financeiras se encontram em algum ponto, e esse ponto é a conta da casa: um custo que os dois sustentam e sobre o qual os dois decidem. É ele que cria o terceiro bolso, e é ele que faz valer a pena sentar as duas pessoas na mesma reunião.

Existe casal que não tem esse ponto. Cada um recebe o seu, paga o que é seu, guarda o seu, e o que é comum já está resolvido há anos sem atrito. Então não existe um financeiro do casal para organizar nesse arranjo, e olhar o conjunto só cria uma conversa que ninguém pediu. O que existe são duas vidas financeiras individuais, com objetivos que até podem ser parecidos, mas que não dependem uma da outra para funcionar.

Quando for esse o caso, faça dois serviços individuais e cobre como dois serviços individuais. Cada pessoa tem a própria anamnese, o próprio diagnóstico, o próprio plano e a própria reunião, e você não força um plano conjunto só porque as duas dormem na mesma casa. Se um dia elas juntarem alguma coisa, e isso costuma acontecer quando aparece um objetivo grande e comum, aí o trabalho de casal passa a existir e você faz a transição.

A pergunta que separa os dois cenários cabe na primeira conversa, antes de você montar proposta: existe alguma despesa ou algum objetivo que vocês dois sustentam juntos? Se a resposta for sim, mesmo que seja só o aluguel, o trabalho é de casal e o resto deste artigo vale. Se for não, você tem dois clientes que moram no mesmo endereço, e o melhor serviço que você entrega é tratar cada um como cliente inteiro.

Quem é o seu cliente quando são duas pessoas?

O cliente é o casal, e essa definição precisa estar dita em voz alta antes da primeira reunião de trabalho. Ela parece burocrática e é a regra que mais salva atendimento, porque quem procura o serviço quase nunca é o casal. É uma pessoa do casal, normalmente a que já estava incomodada com a situação, e ela chega esperando que você confirme o diagnóstico que ela já fez em casa.

Se você aceitar esse lugar, a segunda pessoa entra na primeira reunião como réu. E ninguém colabora com o próprio julgamento, então ela vai responder pouco, concordar rápido para a reunião acabar e não executar nada depois. O plano não morre por falta de técnica, morre porque uma das duas pessoas nunca foi tratada como cliente.

O que eu combino, com as duas presentes, antes de qualquer número aparecer:

O combinado de abertura, dito com os dois na sala
  • Vocês dois são o cliente. Não existe quem contratou e quem foi trazido, mesmo que só um tenha pago. Eu digo essa frase mesmo quando ela é constrangedora, porque o constrangimento dura um minuto e o efeito dura o contrato inteiro.
  • Eu não vou dizer quem está certo. Meu trabalho é colocar os números na mesa e ajudar vocês a decidirem. Se um dos dois esperava um juiz, é melhor descobrir isso agora.
  • Nada do que aparecer aqui vira munição. Vamos abrir dívida, gasto e erro dos dois lados, e o que sair daqui é diagnóstico, não acusação.
  • As decisões saem daqui com os dois presentes. Levantamento pode ser separado, decisão não pode.

Repare que os quatro pontos são sobre condução, e nenhum deles é sobre dinheiro. É de propósito. A parte técnica do atendimento a dois é a mais fácil do serviço, já que a matemática de orçamento não muda por existir uma cadeira a mais; o que muda é a condução, e é nela que a maioria dos atendimentos naufraga.

Como levantar os números de duas pessoas?

Levantando em três blocos separados, desde o primeiro minuto. O bloco de cada pessoa e o bloco da casa. Se você jogar tudo num monte só, como quase todo mundo faz na primeira vez, a conversa sobre divisão fica impossível depois, porque não haverá como responder à pergunta mais óbvia do casal: afinal, quanto custa a nossa casa por mês.

É o mesmo levantamento que eu descrevo em como fazer o levantamento de dados financeiros do cliente. A diferença é de arquitetura: aqui existem duas fontes de renda, dois conjuntos de extratos e dois históricos de dívida, e a ficha de mapeamento anterior à reunião, a anamnese financeira, é preenchida por cada um separadamente. Separadamente é a palavra importante, e por um motivo prático: uma dívida que a pessoa ainda não contou em casa só aparece se ela puder escrever sozinha.

Vamos ao caso que vai atravessar o artigo inteiro. Ana e Bruno moram juntos há quatro anos, os dois com renda estável e carteira assinada, e procuraram ajuda porque nunca sobra nada e já brigaram sobre isso vezes demais.

Os três blocos do caso da Ana e do Bruno
  • A renda da Ana: R$ 6.200 líquidos por mês.
  • A renda do Bruno: R$ 3.100 líquidos por mês.
  • A renda da família: R$ 9.300 por mês, que é a soma das duas e o número que vai valer para reserva, para preço e para os objetivos comuns.
  • O custo fixo da casa, R$ 4.650: moradia com condomínio R$ 1.900, contas da casa R$ 520, mercado R$ 1.350, transporte da casa R$ 430 e plano de saúde dos dois R$ 450.
  • A dívida do Bruno: R$ 1.150 por mês de parcelas, entre um empréstimo e um parcelamento de fatura, contratados antes de eles morarem juntos.

Olhe para o custo fixo da casa por um segundo, porque ele já é um achado. R$ 4.650 é exatamente metade da renda da família, e nenhum dos dois sabia disso antes de somar. Eles achavam que a casa custava "uns três mil e pouco", e essa diferença de mais de mil reais por mês é justamente o dinheiro que eles procuravam sem encontrar.

São três bolsos, e não dois A conta de cada um e a conta que os dois sustentam juntos. A conta da Ana R$ 6.200 líquidos por mês A conta do Bruno R$ 3.100 líquidos por mês R$ 3.100 por mês R$ 1.550 por mês A conta da casa R$ 4.650 de custo fixo por mês O que sobra em cada conta de cima é da pessoa, e não da casa.
A conta da casa é o terceiro cliente da sessão. Enquanto ela não tem um valor próprio, toda conversa sobre gasto vira conversa sobre culpa, porque não existe um número combinado para comparar.

Meio a meio ou proporcional à renda?

Meio a meio é a resposta que praticamente todo casal já tentou, e é a que mais produz ressentimento silencioso. A lógica dela é impecável no papel: a casa é dos dois, então cada um paga metade. O problema é que ela divide o valor em partes iguais e o esforço em partes muito desiguais, e é o esforço que a pessoa sente no fim do mês.

Faça a conta com o caso da Ana e do Bruno, porque é ela que convence. O custo da casa é de R$ 4.650, então meio a meio dá R$ 2.325 para cada um. Para a Ana, que ganha R$ 6.200, isso representa 37,5% da renda dela. Para o Bruno, que ganha R$ 3.100, isso representa 75% da renda dele.

Agora divida por proporção. A Ana responde por dois terços da renda da família e o Bruno por um terço, então ela entra com R$ 3.100 e ele com R$ 1.550. Repare no que acontece: os dois passam a comprometer exatamente 50% da própria renda com a casa. A conta da casa continua sendo R$ 4.650, e o total não mudou em nenhum centavo; o que mudou foi quem fica sem folga em dezembro.

A mesma conta de casa, dois jeitos de dividir Quanto a conta da casa consome da renda líquida de cada um. 37,5% R$ 2.325 Ana 75% R$ 2.325 Bruno Dividido meio a meio 50% R$ 3.100 Ana 50% R$ 1.550 Bruno Dividido por proporção de renda
A barra alta é o problema inteiro. Meio a meio, o Bruno entrega 75% do que ganha para a casa e fica com R$ 775 para tudo o mais, incluindo as parcelas de R$ 1.150 que ele já tinha antes. Por proporção, os dois entregam 50% e a conta da casa continua a mesma.

Falta a parte que dói, e é ela que costuma virar a chave na reunião. Meio a meio, o Bruno fica com R$ 775 para o mês inteiro depois de pagar a parte dele da casa, só que as parcelas dele somam R$ 1.150. Faltam R$ 375 todo mês, e como esse buraco precisa ser tapado de algum jeito, ele volta para o cartão. É assim que um casal que "está pagando as contas em dia" cria dívida nova todo mês sem entender de onde ela vem.

Pela divisão proporcional o Bruno fica com R$ 1.550, paga as parcelas de R$ 1.150 e ainda sobram R$ 400. Não é folga confortável, mas é a diferença entre um plano que fecha e um plano que não fecha, e nenhum real a mais entrou na casa para isso acontecer. O dinheiro sempre esteve lá, mal distribuído.

Aqui vem a parte que separa o educador do palpiteiro: quem decide a divisão é o casal, e não você. Eu não prescrevo um modelo único, do mesmo jeito que não prescrevo uma ordem única para atacar dívida. O que eu faço é mostrar as duas contas na tela, com o percentual de esforço de cada um em cada cenário, e devolver a decisão. Casal que escolhe a própria divisão executa; casal que recebe uma divisão pronta cumpre por um mês e depois volta ao que era.

Existem arranjos intermediários, e eles são legítimos. Tem casal que prefere proporção pura, tem casal que divide meio a meio o que é do dia a dia e proporcionalmente o que é grande, e tem casal em que um assume a casa inteira porque o outro está pagando uma dívida que estrangula. Todos funcionam, desde que três coisas estejam escritas: o valor de cada um, a data em que ele sai e o que acontece quando a renda mudar.

Como fica a dívida de quem ganha menos?

Ela fica escondida se você calcular o comprometimento só na renda da família. Esse é o erro mais comum do atendimento a dois, e ele é sedutor porque a conta da família é a que parece mais "de casal". A régua não muda: o comprometimento se calcula sobre a renda líquida, com até 30% administrável, acima de 30% até 50% em atenção e acima de 50% em situação crítica.

O que muda é que agora existem três contas para fazer, e elas contam histórias diferentes:

  1. A dívida do Bruno contra a renda dele. R$ 1.150 sobre R$ 3.100 dá 37,1%, ou seja, faixa de atenção. Cabe, mas sem folga nenhuma, e qualquer imprevisto vira dívida nova.
  2. A mesma dívida contra a renda da família. R$ 1.150 sobre R$ 9.300 dá 12,4%, ou seja, faixa administrável. Pelo número, está tudo bem.
  3. As duas ao mesmo tempo, que é a leitura correta. A família tem folga e o Bruno não tem, e é ele quem paga a parcela todo dia 10.

A conclusão prática é simples e vale escrever no seu processo: apresente sempre o comprometimento individual junto do familiar. Não é preciosismo estatístico, é o que impede o diagnóstico de dizer que está tudo bem enquanto uma das duas pessoas está afundando. E é também o que abre a conversa mais útil que existe num casal endividado, que é decidir se a dívida de um vira dívida dos dois.

Sobre essa decisão eu não tenho régua, e ninguém deveria ter. Existem casais em que faz todo sentido a renda maior acelerar a quitação da dívida do outro, porque o alívio é da casa; e existem casais em que isso reproduz uma relação de tutela que já faz mal aos dois. O seu papel é fazer as duas contas, mostrar quanto tempo a quitação leva em cada cenário e devolver a escolha. Sobre a mecânica do abatimento em si, com as duas ordens de ataque e o custo em reais de cada uma, eu abri tudo em como ajudar o cliente a sair das dívidas.

Qual é a reserva de emergência de um casal?

É uma só, e ela se mede em meses do custo de vida da família. A régua que eu ensino continua valendo, sem adaptação nenhuma para o fato de existirem duas pessoas: de 3 a 4 meses de custo de vida quando os dois são CLT, e de 6 a 8 meses, chegando a 12 conforme a situação, quando a renda principal é de autônomo ou empresário.

O denominador aqui não é só a conta da casa, é o custo de vida da família: a conta da casa mais o que cada um gasta com a própria vida num mês normal. No caso da Ana e do Bruno são os R$ 4.650 da casa, mais R$ 2.700 da vida da Ana e R$ 1.550 da vida do Bruno, já contando as parcelas dele, ou seja, R$ 8.900 por mês. Como os dois são CLT, a faixa vai de R$ 26.700 a R$ 35.600. É um número grande e assusta, então vale dizer na reunião de onde ele vem e quebrar a meta em degraus, senão o casal desiste antes da primeira parcela. Os seis passos para conduzir essa meta até o fim, do primeiro degrau à regra de uso, estão em como ajudar o cliente a montar a reserva de emergência.

Duas perguntas aparecem sempre nesse ponto, e as duas merecem resposta direta.

  • Uma reserva ou duas? Uma, porque o custo que ela cobre é um só. Se cada um quiser guardar algo além disso, ótimo, mas aquilo é objetivo pessoal e não reserva de emergência da família, e chamar as duas coisas pelo mesmo nome faz o casal acreditar que já chegou quando ainda está na metade.
  • E se um dos dois for autônomo? Aí a régua da renda variável manda, e a faixa sobe para 6 a 8 meses de custo de vida, chegando a 12 conforme a situação. Quando a renda principal da casa oscila, o método inteiro muda de forma, e eu descrevi essa condução em como organizar as finanças do cliente com renda variável.

Vale lembrar do limite do seu papel também aqui. Você pode explicar o que é liquidez diária, explicar por que a reserva nunca fica parada e precisa render pelo menos 100% do CDI ou a Selic, explicar por que imóvel, consórcio contemplado ou aplicação com carência não cumprem o papel de reserva, apontar que ela não existe e fazer a conta de quanto falta e em quanto tempo chega. O que você não faz é citar banco, corretora ou aplicação, nem indicar percentual de alocação. Educar sobre a categoria, sim; indicar o produto, não.

Como as duas pessoas acompanham o mesmo plano?

Com as duas enxergando a mesma tela, e não com uma repassando para a outra. Esse detalhe operacional parece pequeno e é responsável por uma fatia enorme dos planos de casal que morrem no segundo mês. Quando só uma pessoa tem o acesso, ela vira secretária do plano: é ela que lança, é ela que confere e é ela que cobra. Aí, em poucas semanas, o combinado que era dos dois virou fiscalização de um sobre o outro.

E o efeito colateral é cruel com quem ficou de fora. A pessoa sem acesso não vê o saldo, não vê o quanto já foi gasto na categoria e descobre o estouro depois que ele aconteceu, quase sempre em forma de reclamação. Aí ela é acusada de não colaborar, quando na verdade ela estava jogando sem placar. Mentoria de casal em que só um tem acesso é mentoria pela metade.

O passo prático é garantir que as duas pessoas entrem com login próprio na mesma área. Isso se faz ainda na reunião de configuração, e a partir dali os dois passam a ver o mesmo extrato, os mesmos limites por categoria e as mesmas tarefas. Não é sobre ferramenta bonita, é sobre eliminar o intermediário humano entre o plano e a pessoa que precisa executar metade dele.

Os dois vendo a mesma tela

Karppa Flow: o acesso secundário para a segunda pessoa do casal

No card Acesso secundário, dentro do cliente, você preenche nome, e-mail e telefone da segunda pessoa e gera um link válido por 30 dias. Ela cria a própria senha e entra na mesma área, com login próprio, acompanhando o mesmo extrato, os mesmos limites e as mesmas tarefas.

Conhecer o Karppa Flow
Tela de Extrato do Karppa Flow, com os lançamentos do cliente organizados por dia e já categorizados

Sobre o lançamento em si, o combinado que funciona é dividir por origem e não por pessoa responsável. Cada um lança o que passa pela conta dele, todo dia, em trinta segundos, e ninguém lança pelo outro. Quando um assume a digitação dos dois, dois problemas nascem juntos: o volume cansa em duas semanas e a pessoa que não digita perde a consciência do próprio gasto, que é justamente o que o trabalho deveria construir.

Um lembrete de método que vale para qualquer sistema: o número que a análise devolve é ponto de partida, não veredito. Você lê, confere contra o que sabe do casal, ajusta e fecha o seu diagnóstico, porque é você que sabe que a dívida do Bruno é anterior à vida em comum e que isso muda a conversa. Sobre como apresentar esse resultado para duas pessoas ao mesmo tempo, sem afogar ninguém em número, eu detalhei em como apresentar o diagnóstico financeiro ao cliente.

E quando só uma pessoa do casal quer?

Você atende essa pessoa, e não o casal, e diz isso com todas as letras na contratação. Essa honestidade custa uma venda de vez em quando e evita um atendimento fracassado, o que é um ótimo negócio. Um plano que depende de duas pessoas e conta com uma delas quebra no segundo mês, e o cliente não vai atribuir esse fracasso ao cônjuge ausente: vai atribuir a você.

O que eu faço nesse cenário tem três movimentos, nessa ordem.

  1. Encolho o escopo para o que essa pessoa controla sozinha. A renda dela, os gastos dela, as dívidas dela e os objetivos dela. A conta da casa fica de fora do plano enquanto a segunda pessoa não entrar, porque ela não é decidível por um lado só.
  2. Convido a segunda pessoa uma vez, sem insistir. E escolho o momento: a reunião em que os números aparecem pela primeira vez. Convite genérico é recusado, convite para ver um diagnóstico pronto sobre a própria casa costuma ser aceito, porque a curiosidade é mais forte do que a resistência.
  3. Combino um sinal de reavaliação. Se em três meses a segunda pessoa continuar fora, a gente revisa o que dá para prometer, em vez de fingir que o plano está funcionando inteiro.

Tem um caso que parece esse e não é, e confundir os dois custa caro: a pessoa que está na sala e mesmo assim não executa. Isso não é falta de interesse do cônjuge, é falta de adesão, que tem causa própria e conserto próprio, e eu abri esse diagnóstico em quando o cliente não segue o plano financeiro. A regra prática para distinguir: quem não quer não aparece, e quem não consegue aparece e não faz.

Onde termina o seu papel de educador?

Termina onde o assunto deixa de ser o dinheiro e passa a ser a relação. Essa fronteira é tão real quanto a que separa o Educador Financeiro do profissional credenciado para recomendar investimento, e ela é atravessada com a mesma facilidade e pelo mesmo motivo: o cliente pede, a conversa flui e você tem opinião.

Dinheiro é um dos assuntos mais carregados que existem numa relação, então mágoa antiga, controle, culpa e segredo vão aparecer na sua sala. Fingir que não apareceram é pior do que lidar com eles, porque deixa o plano sem chão. O que separa escutar de tratar cabe numa lista curta:

O que é seu e o que não é
  • É seu: escutar sem interromper, nomear em voz alta o que apareceu ("percebi que esse assunto trava vocês dois"), transformar aquilo em uma decisão prática e voltar para o número.
  • É seu: tirar a conversa do "você gasta demais" e colocar no "a categoria mercado passou do combinado em R$ 400". A segunda frase tem conserto, e a primeira só tem resposta.
  • Não é seu: interpretar a relação, explicar um para o outro, opinar sobre o casamento ou tomar partido, mesmo quando um dos dois pedir para você tomar.
  • Não é seu: conduzir a conversa quando o que trava o plano é claramente do vínculo, e não do orçamento. Aí o encaminhamento para um profissional habilitado é dito com todas as letras.

Existe um teste rápido para saber de que lado da linha você está. Pergunte-se se a próxima frase que você vai dizer tem um número atrás dela ou uma opinião. Se tem número, é trabalho seu; se é opinião sobre como eles se tratam, não é. Só que eu já vi educador competente perder um cliente inteiro por uma única frase bem-intencionada sobre a relação, dita num momento em que a única coisa que faltava era mostrar o extrato.

Nada disso se aprende no susto da primeira sessão a dois, e é aí que a maioria aprende. Condução tem método, tem ordem e tem frase pronta para os momentos difíceis, e a diferença entre o educador que atravessa uma reunião tensa e o que trava nela quase nunca é vocação: é ter treinado o roteiro antes de precisar dele.

O método completo de atendimento

Formação Karppa: aprenda a conduzir a sessão, e não só a fazer a conta

A Formação do Grupo Karppa ensina o método de atendimento do começo ao fim. Ele vai do primeiro contato ao acompanhamento contínuo, e inclui a condução das reuniões, a esteira de serviços e a precificação. Converse com um especialista e entenda como aplicar isso na sua rotina.

Falar com um especialista

Quanto cobrar de um casal?

Um contrato só, no preço de tabela, porque o serviço é um só. Essa é a dúvida que mais aparece quando o educador recebe o primeiro casal, e a tentação de cobrar dobrado é compreensível: são duas pessoas, dois conjuntos de extratos e mais tempo de reunião. Só que o que você entrega continua sendo um diagnóstico, um plano e um acompanhamento, e eles não dobram de tamanho porque a sala ganhou uma cadeira.

A esteira de serviços do Grupo Karppa tem três degraus, e vale relembrar os três antes de aplicar ao casal:

  1. Consultoria financeira, o serviço pontual, que entrega o diagnóstico e o plano de ação e tem o encontro de encerramento trinta dias depois. A partir de R$ 500.
  2. Mentoria financeira, o pacote de seis meses, com um encontro por mês, dedicada a construir os cinco pilares da base financeira: quanto ganha, quanto gasta, orçamento, quitar dívidas e reserva. Sempre quatro vezes o valor da consultoria, ou seja, R$ 2.000 quando a consultoria está em R$ 500.
  3. Acompanhamento financeiro, o contínuo, sem data para acabar, para quem já tem a base pronta. Até 5% da renda do cliente, e aqui está o detalhe que muda no casal.

No acompanhamento, a base dos 5% é a renda da família. Num casal que soma R$ 9.300 por mês, a mensalidade vai até R$ 465, e não até R$ 310 mais R$ 155 em contratos separados. Repare na palavra "até": cinco por cento é teto, e cobrar menos no começo para formar a sua base de acompanhamento é legítimo, cobrar acima não é.

O casal costuma ser um cliente de tempo mais longo, e isso não é opinião comercial. É consequência do trabalho: um combinado de divisão precisa atravessar um mês apertado, um presente de Natal e uma discussão para provar que existe. Um mês bom não prova nada. Por isso a conversa do encerramento da consultoria com casal é honesta quando você mostra quais decisões ainda não foram testadas pela vida real. Sobre como formar cada preço e como o terceiro degrau constrói a sua receita mensal, eu abri as contas em quanto cobrar por uma consultoria financeira e em renda recorrente para Educador Financeiro.

Que erros mais aparecem no atendimento a dois?

São sempre os mesmos seis, e nenhum deles é de matemática. Eu listo aqui porque reconhecer o erro no meio da reunião é o que permite corrigir a rota antes do fim dela.

  • Falar com um e olhar para um só. Parece detalhe de postura e é leitura de poder: quem recebe o olhar vira o dono da conversa. Divida o olhar de propósito, e faça a primeira pergunta técnica para quem procurou menos o serviço.
  • Somar tudo numa renda só desde o começo. Some para calcular reserva, preço e objetivos comuns; separe para calcular esforço e comprometimento de dívida. Quem soma tudo perde a única conta que explica o aperto.
  • Apresentar a divisão pronta. Você mostra os cenários, o casal escolhe. Divisão imposta por terceiro é cumprida um mês.
  • Deixar a segunda pessoa sem acesso ao plano. Quem não vê o placar não joga, e depois é acusado de não colaborar.
  • Aceitar decisão por procuração. "Pode decidir com ela e me avisa" é a frase que antecede o plano que não é executado. Remarque.
  • Entrar na relação. O momento em que você começa a explicar um para o outro é o momento em que deixa de ser educador, e o serviço não volta ao lugar sozinho.

Perguntas frequentes

Como fazer planejamento financeiro com um casal?

Tratando o casal como um cliente só e a conta da casa como um terceiro bolso, separado do bolso de cada um. O caminho que eu sigo tem cinco passos: contratar o serviço com as duas pessoas presentes, levantar os números de cada um e os da casa em blocos separados, montar o custo fixo da casa antes de discutir quem paga o quê, dividir esse custo por proporção de renda em vez de meio a meio, e devolver as decisões para o casal em vez de arbitrar por eles. A diferença para o atendimento individual não é o volume de trabalho, é a ordem: com uma pessoa você começa pela renda dela, e com um casal você começa pela conta que os dois sustentam juntos.

As despesas do casal devem ser divididas meio a meio?

Meio a meio parece justo e quase nunca é, porque divide o valor em partes iguais e o esforço em partes desiguais. Pegue um casal com renda líquida de R$ 6.200 e R$ 3.100 e um custo fixo de casa de R$ 4.650. Meio a meio dá R$ 2.325 para cada um, o que consome 37,5% da renda de quem ganha mais e 75% da renda de quem ganha menos. Dividido por proporção, quem ganha R$ 6.200 entra com R$ 3.100 e quem ganha R$ 3.100 entra com R$ 1.550, e aí os dois comprometem exatamente 50% da própria renda. Repare que a conta da casa é a mesma nos dois cenários: o que muda é quem fica sem folga no fim do mês. Quem decide é o casal, e o seu trabalho é colocar as duas contas na mesa com o número do esforço de cada um.

Quanto cobrar de um casal na consultoria financeira?

O contrato é um só, no preço de tabela, porque o serviço é um só. A tabela oficial que eu ensino começa em R$ 500 na consultoria financeira, que é o serviço pontual, e a mentoria financeira de seis meses custa sempre quatro vezes a consultoria, ou seja, R$ 2.000. No acompanhamento financeiro, que é o contínuo, o preço é uma proporção da renda do cliente, até 5%, e no caso do casal a base é a renda da família: num casal que soma R$ 9.300 por mês, a mensalidade vai até R$ 465. Não cobre dobrado por serem duas pessoas. O que você entrega é um diagnóstico, um plano e um acompanhamento, e eles não dobram de tamanho porque a sala tem mais uma cadeira.

E se só uma pessoa do casal quiser fazer o acompanhamento?

Aí você atende essa pessoa, e não o casal, e deixa isso claro na contratação. É uma distinção prática, não formal: um plano que depende de duas pessoas para funcionar e conta com uma delas fracassa no segundo mês, e o cliente vai atribuir esse fracasso a você. O que eu faço quando percebo que só um lado está interessado é combinar um escopo menor e honesto, cuidando do que essa pessoa controla sozinha, e deixar a conta da casa fora do plano até que a segunda pessoa entre. E eu convido a segunda pessoa uma vez, sem insistir, normalmente para a reunião em que os números aparecem, porque número na tela convence mais do que convite.

O casal precisa juntar as contas bancárias para se organizar?

Não precisa, e transformar isso em condição do seu método afasta cliente sem necessidade. O que precisa existir é clareza sobre três bolsos: o que entra e sai de cada um e o que sustenta a casa. Alguns casais resolvem isso com uma conta conjunta, outros mantêm contas separadas e cada um transfere a parte dele todo mês, e os dois arranjos funcionam desde que o valor combinado esteja escrito e saia na mesma data. Eu prefiro não opinar sobre o arranjo bancário e sim sobre o combinado: se ele existe, tem valor definido e tem data, o resto é preferência do casal.

Todo casal precisa de um plano financeiro conjunto?

Não precisa, e essa é a primeira coisa a confirmar antes de montar proposta. O plano conjunto só se justifica quando existe dinheiro que os dois sustentam juntos, normalmente a conta da casa ou um objetivo comum. Quando cada pessoa tem a própria vida financeira e elas não se misturam, o certo é fazer dois serviços individuais, com anamnese, diagnóstico e plano separados, e cobrar como dois serviços. Insistir em olhar o financeiro do casal como um todo, nesse arranjo, cria uma conversa que o casal não pediu e não melhora a vida de nenhum dos dois.

Como calcular o comprometimento de renda de um casal?

Calcule três vezes: para cada pessoa e para a família, sempre sobre a renda líquida. A régua é a mesma de sempre, até 30% administrável, acima de 30% até 50% atenção e acima de 50% crítico, e o que muda no casal é que a conta da família esconde a conta de quem ganha menos. Um cliente com R$ 1.150 de parcelas e renda de R$ 3.100 está em 37,1%, faixa de atenção; a mesma dívida contra a renda da família de R$ 9.300 dá 12,4%, faixa administrável. É a mesma dívida em duas classificações, e a que descreve a vida real dele é a primeira, porque é a renda dele que paga a parcela.

De quanto precisa ser a reserva de emergência de um casal?

De 3 a 4 meses de custo de vida da família quando os dois são CLT, e de 6 a 8 meses, chegando a 12 conforme a situação, quando a renda principal é de autônomo ou empresário. O denominador é o custo de vida da família: a conta da casa mais o que cada um gasta com a própria vida num mês normal, e não só o custo fixo. Num casal com conta da casa de R$ 4.650 e custo de vida de R$ 8.900, a faixa vai de R$ 26.700 a R$ 35.600. E a reserva da família é uma só, porque a vida que ela cobre é uma só: se cada um quiser guardar algo além disso, ótimo, mas aquilo é objetivo pessoal e não reserva de emergência da família. Vale lembrar que reserva exige liquidez diária e nunca fica parada, rendendo pelo menos 100% do CDI ou a Selic; imóvel, consórcio contemplado ou aplicação com carência somam patrimônio e não cumprem esse papel.

O Educador Financeiro deve entrar na parte emocional do casal?

Deve escutar, e não deve tratar. A diferença é essa, e ela é o limite do serviço. Dinheiro é um dos assuntos mais carregados de qualquer relação, então mágoa antiga, controle e culpa vão aparecer na sua sala, e fingir que não apareceram deixa o plano sem chão. O que você faz com isso é nomear o que ouviu, devolver para o casal em forma de decisão prática e seguir para o número. O que você não faz é interpretar a relação, tomar partido ou conduzir a conversa para o casamento. Quando o que trava o plano é claramente da ordem do vínculo, e não do orçamento, o encaminhamento para um profissional habilitado é dito com todas as letras, do mesmo jeito que você encaminha investimento para quem é credenciado.

Os dois precisam estar na reunião?

Precisam, e essa é a regra que eu menos negocio. Decisão tomada com um e comunicada ao outro nasce sem dono do lado de fora da sala, e quem estava ausente cumpre o combinado por obediência, não por acordo, o que dura poucas semanas. Existe uma exceção prática: o levantamento de dados pode ser feito separadamente, e às vezes é melhor assim, porque a pessoa detalha com mais honestidade uma dívida que ela ainda não contou. O que não se faz separado é a decisão. Se um dos dois faltar, eu remarco, e digo o motivo na hora de remarcar, porque o motivo já é parte do método.

O que levar para a próxima reunião

Antes dos cinco movimentos existe um passo de triagem. Confirme, já na primeira conversa, que existe dinheiro que os dois sustentam juntos, porque sem isso o trabalho é individual e não de casal. Se existe, e você tem um casal marcado para aplicar isso já na próxima reunião, o caminho cabe em cinco movimentos. Diga em voz alta, com os dois presentes, que o cliente é o casal. Levante os números em três blocos, o dele, o dela e o da casa. Feche o custo fixo da casa antes de tocar no assunto da divisão. Mostre os dois cenários de divisão com o percentual de esforço de cada um e deixe a escolha com eles. E calcule o comprometimento de dívida individual junto do familiar, porque é o individual que revela quem está sem folga.

Nenhum desses movimentos é difícil tecnicamente, e é exatamente por isso que eles são deixados de lado: parecem óbvios até a reunião em que a sala fica em silêncio. O que separa quem conduz de quem improvisa é ter o processo escrito e repetido em todo atendimento a dois, porque é a repetição que transforma jeito pessoal em método. E é o método que o casal está pagando, já que a conta eles até conseguiriam fazer sozinhos: o que eles nunca tiveram foi alguém na sala capaz de transformar uma discussão antiga em uma decisão com valor e com data.